As polémicas declarações de Cavaco Silva durante o fim-de-semana, a propósito das reformas do Presidente, acabaram por tornar discreto o diário de José Sócrates em Paris, contado pelo Expresso desta semana.
Lendo o artigo ficamos a saber que o antigo Primeiro-Ministro de Portugal “vive num soberbo quarteirão” em Paris, onde deverá pagar uma renda mensal de “no mínimo 4 mil euros” e almoça e janta “em restaurantes inacessíveis ao comum dos mortais”. Sobre a sua actividade diária, além do jogging matinal, sabe-se que participa em think tanks, em discretas conferências, preparadas “quase com os mesmos cuidados que uma reunião maçónica”, frequenta livrarias elegantes como a La Hune, ou a Brasserie Lipp, “frequentada pelo que os franceses chamam a esquerda caviar”.
Aparentemente Sócrates não trabalha, sendo certo que foi para Paris para estudar.
Carvalho Pinto de Sousa José Sócrates (é assim, com este nome, que está inscrito) foi admitido em finais de Setembro de 2011 num dos mais conceituados Centros de Estudos de Ciência Política mundiais, o famoso Sciences-Po. É aluno do primeiro ano do Master de Estudos Avançados em Ciência Política.
Mas tem um estatuto especial: é auditeur libre, ou seja aluno livre, sem as mesmas obrigações que qualquer outro aluno. Vai a exames – se quiser, pode apresentar trabalhos – se quiser, pode ir às aulas – se quiser. E, ao que conta o Expresso, “Sócrates não compareceu aos exames do primeiro semestre”. Ou seja, aparentemente também não estuda.
Não trabalha nem estuda. Sócrates à Paris est un ni-ni: ni travaille ni étudie. Bem que podia juntar-se às manifestações dos indignados.

Expropriação de parte de um cartaz da manif de 15 Outubro no Porto, em http://oblogouavida.blogspot.com/
Quando da assinatura do “acordo” de concertação social, foi unânime o coro dos comentadores situacionistas proclamando, à laia de consolo para o pagode, que agora os patrões não teriam mais alibis que desculpassem a má gestão das empresas. Porque este “acordo” lhes dera tudo o que queriam à custa exclusivamente do trabalho e dos trabalhadores. Ou seja, não mais poderiam dizer que a culpa era da rigidez da legislação laboral e dos excessivos direitos dos trabalhadores. A bola passava para o seu campo.
Claro que esta teoria serviu sobretudo para embrulhar em vaselina um “acordo” intragável, que constitui o maior recuo nas relações de trabalho e nos direitos laborais desde o 25 de Abril, projectando Portugal para a vã glória de ficar na linha da frente europeia em matéria de desregulação e liberalização das relações de trabalho, a somar à sua posição cimeira em matéria de desigualdades de riqueza e de rendimentos, de pobreza, de baixos salários, de elevada duração do trabalho, de economia clandestina e de fuga aos impostos.
Hoje, em declarações à imprensa, o presidente da CIP, António Saraiva, já começou a dar a volta para novas exigências de um patronato que não sabe viver doutro modo senão à sombra da bananeira, perdão, do Estado. E claro, entremeando a coisa com elogios ao bom desempenho do (seu) Governo e com a lamentação de que seria necessário renegociar o plano de sequestro, perdão, de resgate da troika, para garantir crédito às empresas, já voltou ao ataque com a exigência da redução da TSU (Taxa Social Única), assim fazendo coro com o FMI. Nada como arrasar a TSU para acelerar o desmantelamento do Estado Social e dos serviços públicos. Sempre em nome da chamada “desvalorização fiscal” (não se entusiasmem, não é para baixar o IRS), nome bonito com que encobrem, apenas, uma nova operação de saque do Estado em proveito exclusivo de um capital clientelar que foge como o diabo da cruz de fazer os seus trabalhos de casa. Compreende-se. Têm menos qualificações em média do que os trabalhadores que dirigem…
Afinal, se o crescimento económico é apenas conversa fiada e se até os chineses e os angolanos estão em Portugal a abocanhar o que podem dos sectores de bens protegidos e não transaccionáveis (como a EDP, a Banca e outros), também é preciso arranjar espaço para os outros na repartição dos despojos. O Presidente da CIP já explicou qual é uma das cenas do próximo capítulo deste assalto, em nome do “estado de excepção”, à bolsa e à vida da maioria. Só que a paciência também se esgota, e os “brandos costumes” idem…
Nove alternativas ao aumento dos transportes públicos
Exemplos a nível mundial
De acordo com os relatório e contas das empresas de transportes públicos de 2010 – os mais recentes disponíveis -, CP, Refer, STCP, Carris, Metro de Lisboa e Porto e Transtejo / Soflusa apresentaram 940 milhões de euros de prejuízos. Contudo, apenas 24% deste montante se deve a prejuízos operacionais, sendo o pagamento de juros responsável por 76% das perdas das empresas (ver mais aqui e aqui).
Vemos assim que o aumento do preço das tarifas das empresas de transportes públicos, que em nada resolve o problema financeiro das empresas, apenas serve para excluir mais pessoas de utilizarem o serviço público. Aliás, é já esperada uma quebra, segundo o Governo, de 5% nos passageiros. Em Fevereiro entram em vigor aumentos entre 4% e 5% nas empresas de transportes públicos, com alguns aumentos a ultrapassarem os 20%, no caso do Metro de Lisboa. Acaba-se ainda com os descontos de 50% para estudantes.
Depois de ajudar a identificar as principais causas dos sucessivos resultados líquidos negativos e do crescimento da dívida das empresas de transportes públicos, apresento de seguida algumas propostas para fortalecer a saúde financeira das mesmas, inspiradas nas políticas colocadas em prática por empresas em diferentes pontos do globo.
Frederico Pinheiro, membro da direcção da ATTAC Portugal